Quando você precisa falar sobre si, como se apresenta?
A gente sempre lê ou escuta, navegando nas redes sociais, ou em espaços de trabalho e networking, que nossas vozes precisam ecoar tão alto quanto o nosso potencial. Como uma mulher que defende a comunicação como sua ferramenta de vida, assino em baixo que ela é, sim, a ponte entre onde estamos e onde desejamos chegar.
Mas, também tenho aprendido e pensado bastante, às vezes em voz alta, como agora, às vezes silêncio, comigo mesma, como meu corpo me relembra quem eu sou e como quero me posicionar no mundo.
Nesse último mês de março, uma das minhas tarefas profissionais era atualizar o meu portfólio. Resolvi, então, checar os últimos projetos que desenvolvi, repassar as formações complementares recentes que fiz, e começar um rascunho sobre as narrativas que eu iria protagonizar sobre mim.
Entre algumas possibilidades para a minha “marca pessoal’’, eu poderia falar sobre ser jornalista, trabalhar com curadoria de conhecimento, até mesmo mencionar minha paixão pela escrita. Porém, existe uma Ana que fertiliza todas as outras e atravessa todos os meus trabalhos: sou uma mulher negra de Candomblé.
Há alguns anos, eu hesitaria em me apresentar dessa maneira. Nós, pessoas negras, sabemos que o racismo segue tentando nos tirar esse poder de autodefinição e como todos os ambientes, seja com mais ou menos força, ainda reproduzem uma série de preconceitos e discriminações raciais.
Mas, hoje, eu tenho a compreensão, a força e alguns privilégios para me apresentar enquanto uma mulher de terreiro que fala, escreve e produz a partir desse lugar. Do chão onde os meus pés estão plantados.
Após anos observando e investigando a mim e a minha trajetória, entendi que se eu não cultivasse e honrasse minha própria energia e identidade, me ausentaria de mim e do mundo.
É justamente sobre isso que Neusa dos Santos Souza, escritora e psicanalista brasileira, nos ensina: nas palavras dela, construir um discurso sobre si é uma das formas de termos autonomia e também de reconhecermos o contexto social no qual estamos inseridos, com todas as suas dores e belezas.
Agora, repita comigo: a cultura negra está mudando o mundo
Duas coisas, então, que aprendi e tem mudado a minha vida – não só profissional, mas principalmente pessoal:
- Você precisa saber quem você é. Isso é prosperidade e, também, caminho para desenvolver uma carreira autêntica, potente e criativa na qual você se reconheça e imprima os seus valores e princípios
- Você precisa definir o que quer e aonde deseja chegar para ditar suas regras, ritmo e caminho. Só assim não ficará refém de referências, roteiros sociais e performances que não sintonizam com a sua trajetória e comunidade
Para construirmos juntos esses raciocínios, também chamo para a nossa conversa Beatriz Nascimento. Poetisa, professora e ativista brasileira que sempre defendeu a cultura negra como um instrumento de autoafirmação. Não só racial, mas também intelectual e existencial.
Pensando nisso, acredito que a gente possa reconhecer a cultura negra com uma tecnologia, uma magia, sensível e inventiva, que se revela como um rito de passagem e renascimento, para voltarmos para nós e para os nossos.
Ao olharmos para os movimentos negros brasileiros, torna-se vivível que são os quilombos, as festas populares, as tradições de matriz africana, os artistas, as rezadeiras, os educadores que nos apresentaram diferentes ideias, perspectivas e valores.
São eles que ampliaram os nossos horizontes e, seguem, estimulando nossa compreensão sobre as populações negras, quilombolas e indígenas que nos trouxeram até aqui.
Nesse emaranhado de reencontros, reaprendemos a ser nós mesmos, sem o olhar racista ou colonial, que se faz presente nas relações sociais cotidianas; nas corporações, agências e startups; ou ainda nas plataformas de mídia, como o LinkedIn e o Instagram.
Sobre amadurecer ideias, corpos, movimentos e estratégias
Como uma mulher negra que vivencia a ancestralidade preta de terreiro, afirmo, sem sombra de dúvidas, que os jeitos negros de ser e viver, em suas danças, músicas, festas, comidas, rezas e lutas, devolveram um espelho mais limpo sobre mim.
Neles, me vi, reconheci, revirei e me refiz, aceitando as bonanças que estão esperando por chegar. E, ao me apropriar de seus conhecimentos, códigos e estratégias, fortaleci a minha voz para caminhar e agir sobre o mundo.
Assim, pude aprender a agradecer pela vida eterna das referências que nos ensinaram que o nosso pensamento, as nossas histórias e as nossas expressões de vida são válidas.
Se relacionar esses saberes e formas de vida, com respeito e pisando devagar, é como criar uma fortaleza. Ela irá proteger nossas identidades e, vez outra, impedir que a gente se perca, confunda ou se enfraqueça.
Como nos relembra Morena Mariah, especialista em afrofuturismo: “nossa conexão com o passado é o que nos move para o futuro’’.
Notas sobre reencontros
Sigo reaprendendo a viver para mim mesma e para as minhas comunidades. Voltar para si é um movimento vivo, íntimo e em quilombo que gera frutos e transformações.
Por isso, seja confiante, paciente e observe os hábitos, os pensamentos e as palavras que você alimenta. Por hora, não se esqueça:
- A vida vai criando formas bonitas de nos conectar com os nossos caminhos.
- Quando você não se conhece, o mundo é muito mais perigoso.
- Ir de bonde é melhor do ir que sozinho!
- Pensar identidade é pensar sobre o mundo e as novas formas de viver nele.
- Que a gente tenha tempo de reaprender a viver com a sabedoria de nossos ancestrais.

Mulher de terreiro, jornalista e curadora de conhecimento. Escreve, realiza e produz projetos sobre relações étnico raciais, diversidade religiosa, saberes ancestrais e racismo religioso.