A política conservadora por trás da Marcha para Exu

Marcha para Exu

Em 2023, influenciadores digitais de terreiros de Umbanda, Candomblé e Quimbanda, entre outras religiões afro-brasileiras, organizaram a chamada “Marcha para Exu’’, em São Paulo (SP), diretamente da Av. Paulista.

A “Marcha para Exu”, organizado por Jonathan Pires, teve como slogan a luta contra a intolerância religiosa e recebeu a presença “ilustre” do capitão Silva Rosa, da Rota, um batalhão militar conhecido pelas operações de chacina da juventude negra paulista. 

Enquanto Exu, um dos maiores símbolos da luta negra no país, era associado ao bolsonarismo e aos valores da extrema-direita durante a marcha, o Terreiro Caminho da Luz reivindicava a autoria da passeata que realizava há quatro anos junto a outras ações culturais. Entre apropriações e polêmicas, o evento acabou incendiando debates importantes sobre a relação entre política, tradições de terreiro e influência digital.

Dentro e fora das redes sociais, a denúncia foi feita: a quem serve uma marcha a favor da liberdade religiosa, mas pautada em uma política conservadora? E, principalmente, quais os seus efeitos? 

Apropriação e exploração: os bastidores da Marcha 

O caso começa assim: logo após o anúncio da “Marcha para Exu” nas mídias digitais, a Mãe de Santo e as filhas de santo do Terreiro Caminho da Luz vieram a público denunciar a apropriação da Marcha que era realizada desde 2017 por meio do projeto Samba do Seu Zé. 

Na reportagem“Privatizaram Exu? Entenda o processo conturbado de patenteação da Marcha de Exu’, o Jornal Matriz Africana detalha o processo da Marcha para Exu registrada no nome da matriarca do terreiro no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Na época, Renzo Carvalho, ativista e homem de terreiro, relembrou em seu perfil no X, antigo Twitter, que o capitão convidado fez campanha para Bolsonaro, ex-presidente que comparou pessoas quilombolas a animais. Segundo Renzo, a manifestação era um escárnio com a memória dos ancestrais negros assassinados pelos aparatos repressivos brasileiros. 

No Instagram, o perfil Pensar Macumba adotou a narrativa “Meu Exu não Marcha’’ para fazer algumas críticas ao evento e trazer reflexões sobre a invasão de ideologias e de personalidades de direita nas manifestações das Comunidades Tradicionais de Terreiro. 

Das redes sociais à Avenida Paulista: a ascensão dos influenciadores de axé

Entre aclamações e retaliações, o evento da Marcha para Exu chegou à sua segunda edição em 2024, reunindo milhares de macumbeiros e simpatizantes na Avenida Paulista. A vitrine continuou a mesma: celebrar a cultura afro-brasileira e combater a “demonização de Exu’’. 

Ao longo da história social brasileira, a figura de Exu foi apropriada por organizações cristãs e neopentecostais, para estigmatizar as religiões de axé, alegando que é “macumba”, “feitiçaria”, “coisa do diabo”. 

Assim, para justificar as opressões e amarrar as culturas afro-religiosas aos esquemas de deus-diabo, bem-mal, salvação-perdição, céu-inferno, a Divindade foi eleita para o papel e encarnação do Diabo, mesmo que represente a alegria, a contradição, a dualidade, o gozo, a comunicação, o trânsito da vida e da morte, na perspectiva diaspórica brasileira. 

Carolina Rocha, pesquisadora, avança nessa discussão afirmando que o Diabo não é uma máscara sem rosto, como dizem alguns especialistas, mas que, em nossa sociedade, tem corpo, cor e gênero. É um homem preto, encarnado principalmente na figura de Exu, o que o torna o principal alvo da demonização.

Consequentemente, movimentos negros, lideranças religiosas e organizações afro-brasileiras estiveram à frente de diversas lutas, campanhas educativas e levantes populares pelo respeito e pela valorização de Njila, Elgebá e Exu, representações dessa força nas diferentes tradições de Candomblé Angola, Vondun e Candomblé Ketu.

Considerando esse contexto histórico, a Marcha logo coloca em xeque os avanços do povo de terreiro: como Exu, um dos maiores símbolos da luta negra no país, está sendo associado ao bolsonarismo e aos valores da extrema-direita?

Fica evidente, sem margem para dúvidas, que parte dos influenciadores digitais e TikTokers de axé não tem um vínculo ou um comprometimento político, racial e identitário com o legado e a educação ancestral negra do Sagrado Preto.

Ao contrário, eles têm protagonizado e alimentado novos pagamentos e opressões: nos perfis deles, encontramos convocações para terreiros virtuais e cursos online sobre Exu e Pombagira, publicações sobre teoria do sacerdócio por R$ 49,00 e a venda desenfreada de ebooks, mentorias e masterclasses sobre Umbanda Livre 2.0, por exemplo.

Enquanto isso, essas personalidades mantêm um silêncio ensurdecedor sobre os casos de violência contra as religiões de matriz africana: terreiros são invadidos e depredados; lideranças religiosas, como a Ialorixá e líder quilombola Mãe Bernadete, são assassinadas; e mães perdem a guarda legal de seus filhos por causa de sua fé.

O trabalho digital e social dos influenciadores parece, então, resumir-se a monetizar nas plataformas, marchar nas ruas e, no fim, enfraquecer a cultura negra através de diversas estratégias de distração. 

O silêncio sobre os casos de racismo religioso 

O resultado desse silêncio não é apenas o enfraquecimento cultural, mas a invisibilização de opressões enfrentadas diariamente pelas populações de santo espalhadas pelo Brasil. 

Para ilustrar, em julho de 2022, a Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro) divulgou o relatório “Respeite o Meu Terreiro — Mapeamento do Racismo Religioso Contra Os Povos Tradicionais de Religiões de Matriz Africana”. O mapeamento ouviu lideranças de 255 terreiros e revelou que 78% dos entrevistados relataram que membros de suas comunidades já sofreram algum tipo de violência, física ou verbal, devido ao racismo religioso.

Diversas pesquisas também mostram que o ambiente digital tem sido palco para o crescimento de práticas racistas, envolvendo povos e comunidades tradicionais. Somente em 2024, o Disque 100 registrou 452 denúncias de racismo online, número recorde, conforme dados do relatório “Brasil, mostra a sua cara” do Aláfia Lab.

Ana Laura Vieira e Lucas de Castro, coordenadores da Rede Emancipa, alertam que não devemos cair em propagandas oportunistas que têm como único propósito a despolitização dos terreiros.

Isso porque, iniciativas como essas, por vezes, reforçam agendas fúteis e dispersas que ocultam discussões sobre projetos e organizações mobilizadas em defesa dos Terreiros. 

Enquanto políticas conservadoras ganham força no Brasil, é urgente repensarmos determinados movimentos que seguem lógicas capitalistas, algorítmicas e reacionárias enquanto tentam se camuflar de ativismo afro-religioso. 

Que seja firmado, mais uma vez: casas de santo e barracões são seguem sendo espaços políticos que lutam pela vida da população negra e pelos saberes afro-brasileiros, assim como Exu. 

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