A importância de valorizarmos escritoras negras desde o seu começo: conheça 9 histórias errantes de Márcia Feijó

Márcia Feijó

Apostar em escritoras negras desde a primeira publicação é um ato de justiça histórica e social. Ao impulsionar novas vozes da literatura negra, o mercado editorial não apenas caminha para o combate às disparidades de gênero e raça, mas garante que visões de mundo complexas e sensíveis saiam do silêncio para ocupar o centro do debate literário contemporâneo.

Apoiar a literatura negra feminina desde o começo é promover uma representação autêntica da nossa sociedade. Ao dar voz a novas escritoras negras, ou melhor, ao permitirmos que essas vozes falam de forma livre, fortalecemos a escrevivência como ferramenta de transformação social. Esse movimento garante que vivências e memórias negras ocupem as prateleiras, substituindo estereótipos por narrativas reais e potentes que moldam o futuro do cenário literário.

O trabalho de autoras que seguem o legado de Conceição Evaristo transforma a ancestralidade em resistência garantindo que o mercado seja um espaço de reparação histórica e diversidade real.

Confira por que valorizar a escrevivência e o talento de escritoras negras iniciantes é o primeiro passo para uma literatura mais diversa e representativa:

Reparação histórica e de gênero 

A reparação histórica no mercado editorial passa, obrigatoriamente, pela valorização de autoras negras iniciantes. Durante gerações, o silenciamento e a falta de oportunidades limitaram a produção literária de mulheres negras. Ao incentivarmos essas vozes desde sua primeira publicação, combatemos o legado de exclusão e promovemos uma verdadeira democratização da leitura e da escrita.

Aumento da diversidade de perspectivas

A literatura de mulheres negras oferece um contraponto vital à tradição eurocêntrica e masculina predominante. Valorizar escritoras negras iniciantes enriquece o repertório literário nacional, trazendo novas narrativas e subjetividades que abordam a vivência da mulher negra sob diversas óticas, desde a ancestralidade até os desafios contemporâneos.

Subversão de estereótipos 

Ao contrário das representações externas que limitam a mulher negra a estereótipos de subalternidade, as escritoras negras assumem o protagonismo de suas próprias narrativas. Valorizar essas autoras desde o começo garante que suas histórias sejam contadas com a complexidade e a humanidade que a literatura negra feminina exige, rompendo com visões distorcidas do passado.

Construção de identificação 

Como as mulheres negras constituem uma parcela decisiva do público leitor, apoiar escritoras negras nacionais desde cedo é uma estratégia de conexão real. A valorização de novas autoras negras cria um profundo sentimento de identificação, permitindo que leitoras se reconheçam nas histórias e encontrem vozes que narram suas próprias experiências com dignidade e protagonismo.

Empoderamento e visibilidade

O reconhecimento precoce é o que permite que uma escritora negra iniciante se estabeleça e mantenha uma produção constante. Garantir que suas obras alcancem um público amplo, para além do círculo pessoal, é fundamental para o empoderamento feminino negro na esfera cultural. Esse suporte inicial é o que transforma o talento individual em uma voz ativa na literatura brasileira contemporânea.

A “Escrevivência” como resistência

O conceito de escrevivência, cunhado por Conceição Evaristo, é um pilar central para entender a importância de apoiar escritoras negras desde o começo. Ele sublinha que a escrita dessas mulheres nasce da vivência profunda, da memória coletiva e da resistência, consolidando-se como um ato político que transforma a trajetória de novas autoras negras em um legado para a literatura brasileira.

Educação e Consciência Coletiva

Ler escritoras negras é um passo essencial para a formação de uma consciência coletiva antirracista. Ao valorizarmos essas vozes desde o início de suas carreiras, promovemos o reconhecimento da cultura afro-brasileira, que é o pilar fundamental da identidade do Brasil, garantindo que a diversidade literária chegue a todos os leitores.

Ampliação do Cânone Literário

Ao priorizar a autoria negra feminina, as instituições culturais promovem uma reparação necessária, garantindo que o cânone literário seja finalmente plural e representativo.

Para quem deseja apoiar o cenário atual, Nove Histórias Errantes (2021), de Márcia Feijó, é uma leitura essencial

Publicado pelo Estúdio Semprelo em 2021, é o primeiro livro de ficção de Márcia Feijó. Mulher negra nascida em Porto Alegre-RS, vive em São José-SC e tem dois filhos e uma neta. Jornalista de formação com mais de 30 anos de atuação em diversos veículos de imprensa, foi repórter no Jornal Pioneiro (RBS), no Correio do Povo no Rio Grande do Sul e trabalhou como repórter e editora na área cultural no Diário Catarinense em Florianópolis-SC. Atuou também como assessora de imprensa e, hoje, se dedica às áreas de Educação Corporativa, Endomarketing, Responsabilidade Social, Diversidade e Inclusão no setor privado.

A obra conta com ilustrações de Carina Santos, Bruno Barbi, Osmar Yang e Serge Kabongo. A escolha dos artistas se deu pela afinidade estética, contudo, cada um teve autonomia e liberdade artística para criar de acordo com as narrativas. Assim, somos agraciados com ilustrações que nos mergulham nos caminhos das personagens. Segundo Márcia, em entrevista ao Portal Catarinas, o livro nasceu como um presente para si mesma: “Publicar tem a ver com a minha revisão de vida e meus aprendizados recentes. Muito dessas minhas buscas está refletido nas buscas dessas personagens também e muito das minhas vivências dos últimos cinco anos tem a ver com elas”. Esta não foi a primeira incursão da escritora no mundo da literatura. Em 2020, participou da coletânea de poemas Retintas – quando os pretos e as pretas tiram os poemas das gavetas, coordenada pelo professor Márcio de Souza através da Secretaria de Igualdade Racial e Combate ao Racismo (Sinte-SC).

O livro Nove Histórias Errantes, de Márcia Feijó, apresenta uma coletânea de contos com protagonistas negras em contextos distintos, personificando a potência da literatura feminina contemporânea. O tom da obra é anunciado logo no primeiro conto: narrativas curtas com fortes marcas de oralidade, elemento central da escrevivência, que retratam a necessidade de movimento das personagens. São mulheres de diversas idades que, ao enfrentarem opressões, encontram forças para resistir. Como destaca Rafaela Giordano na orelha do livro: “Ao ler os contos da Márcia pela primeira vez, confesso ter ficado desconfortável com o fato de as protagonistas precisarem ir embora. Achei doloroso não sermos aceitas como somos, com nossos sonhos e desejos.” (Feijó, 2021)

A escrita de Márcia Feijó, em Nove Histórias Errantes, é um exemplo potente de como a autoria negra feminina transforma dor em resistência. Através de narrativas que fundem o cotidiano ao fantástico, a autora expõe as marcas da inferiorização e do racismo estrutural, convidando o leitor a uma consciência antirracista. Apoiar a literatura de mulheres negras desde o começo de suas trajetórias é essencial para que temas como ancestralidade e renascimento ocupem o mercado editorial nacional.

Referências:

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Editora: EDUFBA, 2008.

FEIJÓ, Márcia. Nove histórias errantes. 1.ed. Florianópolis: Estúdio Semprelo, 2021.

Jornalista Márcia Feijó lança primeiro livro de ficção: “Nove histórias errantes”. 30 nov 2021. Disponível em: https://catarinas.info/jornalista-marcia-feijo-lanca-primeiro-livro-de-ficcao-nove-historias-errantes/Acesso em: 20 fev.26.

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