Religião no Brasil: dados do Censo 2022 mostram um cenário mais diverso e plural

regilião no brasil

Nas últimas semanas, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os dados de religião no Brasil do Censo 2022. Desde então, diversas reportagens, programas de TV, podcasts e conteúdos nas mídias sociais têm comentado sobre o novo cenário religioso do país.

Agora, somos um território menos católico? Ou, mais evangélico? Como a juventude tem se relacionado com a fé e a espiritualidade? Estamos vivenciando um momento de afirmação das religiões de matrizes africanas?

Essas serão as questões que pairam no ar e, que conversamos neste blog. Mas, lembrando: trata-se de um primeiro olhar. A ideia é levantarmos diálogos e realizar um breve mapeamento das tendências do quadro das religiões no Brasil.
Vamos começar.

O quadro de religião no Brasil está mais plural e diverso

Depois de mais de uma década, finalmente temos novos registros públicos sobre como parte do povo brasileiro declara a sua fé, a sua religiosidade.

Para compreender esses números e o que eles representam, partimos de um ponto crucial: esses dados são um recorte. Ou seja, são oriundos de uma parte da população brasileira que oficialmente se declarou.
Ainda que extremamente importante, como toda pesquisa pública, limitações fazem parte e também devem ser consideradas com cuidado e atenção.

Mas, se tem algo que os dados de religião do Censo 2022 reafirmam é a pluralidade e a dinâmica do campo da religião no Brasil.

Na verdade, essa diversificação já vinha sendo observada nos Censos de 2000 e 2010 que apontavam uma tendência de mudança na hegemonia do catolicismo.
E, consequentemente, o surgimento de outros segmentos, como os evangélicos.

Segundo os dados do Censo de 2022, embora o Brasil continue majoritariamente cristão, é notável que nas últimas quatro décadas houve uma queda.
Enquanto isso, tradições como Umbanda, Candomblé, Jurema Sagrada, Tambor de Mina, também ganharam mais visibilidade pública e vêm ampliando seu número de adeptos a partir do fortalecimento da cultura afro-brasileira em nosso território.

Assim, acompanhando os números divulgados pelo IBGE, temos o seguinte cenário:

  • Católicos são 56,7% – diminuição de -12,7 pontos percentuais (- 8,3% em relação a 2010)
  • Espíritas são 1,8% – diminuição de -0,3 pontos percentuais (-14,3% em relação a 2010) 
  • Evangélicos são 25,9% – aumento de 5,2 pontos percentuais (+23,9% em relação a 2010)
  • Religiões de matriz afro (classificadas como Umbanda e Candomblé, mas há outras neste grupo) são 1,00% – aumento de + 0,7 pontos percentuais (+233% em relação a 2010)
  • Outras religiosidades são 4,00% – aumento de + 1,3 pontos percentuais (+48% em relação a 2010)
  • Sem religião são 9,3% – aumento de +1,4 pontos percentuais (+17% em relação a 2010)

Adeptos das religiões afro-brasileiras triplicam, negros são maioria

Com o maior crescimento proporcional entre 2010 e 2022, as religiões afro-brasileiras viram seu número de adeptos mais que triplicar e chegar a 1.849.824 pessoas no Brasil, segundo dados do novo censo.

Desta parcela, considerando especificamente as tradições de Umbanda e Candomblé, 42,9% são brancos, 33,2% pardos e 23,2%, pretos.
No total da população brasileira, pessoas negras (pretas e pardas) seguem sendo a maioria nestes quilombos negros, apesar do número expressivo de pessoas brancas nas comunidades de axé.

Portanto, atenção! Embora alguns veículos de comunicação e perfis nas redes sociais estejam dizendo e publicando que pessoas brancas são maioria nas casas de santo, isso não é verdade. Desmentir essa “informação” é essencial para reconhecermos a resistência das populações negras nesses territórios sagrados que seguem gerando tecnologias de vida, arte, saúde, história e memória.

Mas, retomando o assunto. O crescimento de pessoas declarando suas pertenças afro é visto como um resultado direto do movimento de valorização desse grupo, impulsionado pela ampliação e acirramento do debate racial no Brasil nos últimos anos.

Em entrevista à Folha de São Paulo, Carolina Rocha, pesquisadora e autora do livro “A Culpa é do Diabo: o que li, vivi e senti nas encruzilhadas do racismo religioso” destacou que esses dados apontam e refletem para os seguintes cenários:

  • Ampliação da afirmação de identidade afro-brasileira, que favorece as declarações de pertencimento a tradições de Batuque, Quimbanda, Terecô, Tambor de Mina, por exemplo;
  • Maior mobilização e valorização política, cultural e comunitária de lideranças religiosas, coletivos de terreiros, influenciadores digitais, educadores e ativistas, a exemplo de diversas campanhas contra a intolerância religiosa realizadas por diversos produtores de saberes e instituições nos últimos anos e;
  • O fortalecimento e a ampliação de políticas de inclusão racial, como a Lei de Cotas, de 2012, formando mais acadêmicos negros que ampliam a visibilidade dessas religiões e incentivam novos e velhos adeptos a se declararem.

Apesar deste cenário mais favorável, é possível que haja uma subnotificação considerável dos adeptos das Comunidades Tradicionais de Terreiro, como nomeia o Babalorixá Sidnei Nogueira.

Isso porque a cultura de violência e preconceito contra essas manifestações, não só religiosas, mas sobretudo culturais da população negra em diáspora brasileira, segue viva. Na prática, invasões a terreiros, incêndios, interdição de rituais em espaços públicos e assassinatos de Mães e Pais de Santo fazem parte dos ataques que essas tradições sofrem.

Segundo o Disque 100, serviço do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), no primeiro semestre deste ano, o estado do Rio de Janeiro ultrapassou São Paulo e assumiu o primeiro lugar em denúncias registradas por vítimas de intolerância ligadas ao Candomblé, à Umbanda e a outras religiões de matriz africana, onde 71% das vítimas de intolerância religiosa são mulheres.

Além disso, é importante considerar também como os casos de dupla pertença religiosa de diversos brasileiros e brasileiras podem afetar a sub-representação dessas religiões nos formulários e censos mais rígidos a essas experiências diversas com a fé.

Evangélicos: crescimento consolidado, mas em ritmo moderado 

Os dados do Censo 2022 também confirmam o crescimento do segmento evangélico no Brasil. Agora, um em cada quatro habitantes, é evangélico, representando 25,9% da população

Embora tenha havido uma expectativa pública, tanto popular, quanto de especialistas e pesquisadores na área, de que os evangélicos ultrapassariam os católicos, os números do IBGE indicam um crescimento moderado em comparação com décadas anteriores.

A forte e crescente presença evangélica na política partidária, na cultura e em pautas sociais com grande visibilidade midiática fortaleceu o imaginário de maior domínio deste grupo e também incentivou o maior interesse nessa tradição,  antes ofuscada pela hegemonia católica. 

Apesar do crescimento, a jornalista Virgínia Balloussier explica, em episódio do podcast Café da Manhã, que a desaceleração pode ser explicada por diversos fatores, como:

  • O segmento evangélico se tornou menos monolítico e mais fragmentado, incluindo igrejas autônomas, células independentes, “desigrejados” e influenciadores religiosos;
  • A abertura de novos templos nem sempre se traduz em um aumento de fiéis, podendo indicar apenas uma fragmentação das igrejas e formação de núcleos mais independentes;
  • Há uma vinculação menos sólida de fiéis em comparação com o passado e;
  • A questão geracional também é relevante, com uma parcela significativa de jovens, mesmo de famílias evangélicas, declarando-se sem religião, por exemplo.

Católicos seguem com presença hegemônica, apesar do declínio 

O declínio do catolicismo, uma tendência que se acentuou nas últimas quatro décadas, também foi registrada nos dados de religião do Censo 2022. No entanto, pela primeira vez, vemos uma pequena desaceleração na taxa de queda.  Atualmente, os católicos representam 56,7% da população, o que significa uma diminuição de 12,7 pontos percentuais em relação a 2010. Apesar dessa redução, este segmento religioso permanece como majoritário no Brasil. A maior concentração de católicos é verificada no Nordeste (63,9%) e no Sul (62,4%). 

Segundo o ISER, Instituto dos Estudos da Religião, algumas transformações sociais explicam este declínio, como exemplo: ampla migração do campo para as grandes cidades desde 1950, mudanças geracionais e alterações nas formas como as pessoas praticam a sua fé.

Para frear esse cenário, a Igreja Católica tem buscado modernizar sua linguagem e suas formas de comunicação

Neste esforço, o Papa Francisco desempenha um papel crucial devido à sua presença internacional e ao seu carisma de liderança próxima às pessoas. Um exemplo notável foi a sua visita ao Brasil em 2013, durante a Jornada Mundial da Juventude, que foi emblemática e contribuiu para uma aproximação da Igreja Católica com o grupo etário mais jovem. 

Além disso, o Vaticano realizou o Sínodo da Amazônia, colocando ênfase em uma região onde a perda de fiéis para o campo evangélico tem sido mais expressiva.

Continuaremos conversando sobre a diversidade da regilião no Basil

Como anunciado, essas são as impressões iniciais sobre o panorama atual das religiões no Brasil. 

Continuaremos observando, refletindo e amadurecendo novas perspectivas para acompanhar os desdobramentos de tradições e fenômenos em constante transformação e disputa. 

Como sugestão, indico fortemente acompanhar todas as indicações de autores, pesquisas e produtos, como podcasts e reportagens linkadas, ao longo do blog, para seguir atualizado sobre o assunto.

Mas, e para você, o que chamou atenção nos novos dados de religião no Brasil? Deixe nos comentários!

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