Ler Djaimilia Pereira de Almeida é essencial para quem deseja compreender a força da literatura contemporânea de língua portuguesa. Considerada uma das maiores escritoras negras da atualidade, sua obra mergulha em uma narrativa que é, ao mesmo tempo, delicada e devastadora. A autora transita com maestria entre o ensaio e a ficção, oferecendo ao leitor uma perspectiva profunda sobre identidade, memória e o sentido de pertencimento. Se você busca uma literatura que provoque reflexão crítica e encante pelo estilo estético, Djaimilia é o nome indispensável na sua estante hoje.
Djaimilia Pereira de Almeida consolidou-se como uma das escritoras negras mais sofisticadas da língua portuguesa contemporânea.
Focada na experiência de corpos negros e imigrantes, é autora de obras como Esse Cabelo e A Visão das Plantas não escreve apenas histórias; ela escava camadas de memória e identidade com uma precisão cirúrgica. Sua obra desafia fronteiras geográficas e temporais, transformando o luto, a ancestralidade e o cotidiano em uma investigação profunda sobre o pós-colonialismo e a condição humana. Ler Djaimilia é indispensável para quem busca uma literatura que une estética refinada e reflexão crítica.
Nascida em Luanda, capital de Angola, em 1982, mudou-se ainda criança para Portugal onde vive até hoje. Doutora e mestra em Teoria da Literatura pela Universidade de Lisboa, licenciada em Estudos Portugueses, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Sua dissertação de mestrado, Amadores (2006) foi reconhecida com o Prêmio Primeiras Teses 2010 pelo Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra.
Sua escrita é intensamente atravessada pela subjetividade do corpo negro afrodiaspórico e pelas tensões pós-coloniais entre Angola e Portugal. Ao ler Djaimilia, o leitor encontrará temas como a solidão, a memória do passado e a complexidade dos afetos, que constituem o mundo profundo ocupado por seus personagens. É uma voz fundamental para compreender a identidade e as marcas da ancestralidade na ficção atual.
A relevância global de Djaimilia Pereira de Almeida entre as maiores escritoras negras da atualidade é confirmada por sua presença em veículos renomados como The New York Times, Granta e Folha de S.Paulo. Além de sua atuação literária, Djaimilia exerce um papel fundamental na esfera pública, tendo sido consultora de Direitos Humanos e Igualdade na Casa Civil em Portugal. Atualmente, sua autoridade intelectual é reconhecida academicamente como professora da New York University (NYU) e através de residências internacionais, como na Literaturhaus Zürich, consolidando-a como uma voz essencial da língua portuguesa no cenário mundial.
Ganhou prêmios de prestígio como o Oceanos (2019) com Luanda, Lisboa, Paraíso, e o Grande Prémio de Romance e Novela APE (2024) por Toda a ferida é uma beleza. E, em 2025, a autora recebeu o Prêmio Vergílio Ferreira de romance por sua contribuição à literatura portuguesa. Trata-se de um dos prêmios mais significados em Língua Portuguesa, pois premia os autores pelo conjunto da obra.
4 obras para conhecer a literatura de Djaimilia Pereira
Esse cabelo (2015)

Djaimilia estreou como romancista com a publicação de Esse cabelo em 2015. Através da reflexão sobre a aceitação do cabelo crespo, o livro propõe um mergulho sobre identidade, pertencimento, corpo e herança colonial. Ao explorar a subjetividade da mulher negra na diáspora, essa obra consolida-se como uma leitura essencial para quem busca entender as tensões pós-coloniais na literatura contemporânea.
Luanda, Lisboa, Paraíso (2018)

Obra vencedora do Prêmio Oceanos em 2020, o romance trata da colonização portuguesa em Angola, do exílio, dos laços familiares, dos preconceitos com os imigrantes angolanos em Portugal e da necessidade de esperança.
A visão das plantas (2019)

O romance reconstrói a história de Cristóvão Ferreira, um ex-escravizado que retorna aos Açores após uma vida marcada pela navegação e pelo tráfico negreiro. A obra traz reflexões sobre memória, arrependimento e herança colonial.
Três Histórias de Esquecimento (2021)
Nesta obra de Djaimilia Pereira de Almeida, as autoras partem em busca do mais profundo dos mistérios: descobrir o que realmente diverte uma criança. A protagonista, Maria, é movida por uma vontade incontida de rir e escrever: um desejo de liberdade que colide com as expectativas de sua madrinha, que tenta transformá-la em uma menina normal, silenciosa e sisuda. Ao narrar essa disputa, Djaimilia reafirma sua posição como uma das maiores escritoras negras da atualidade, trazendo para o público jovem temas como a resistência da identidade e o poder da subjetividade negra desde a infância.
Ferry (2022)

Ferry aborda a travessia de Vera e Albano em direção ao sul, em uma fuga silenciosa dos fantasmas que os perseguiam na margem norte do rio. Sob um anel de neblina e águas negras, o casal encara o desconhecido, deixando para trás uma cidade de ausências. Essa obra reafirma Djaimilia como uma das maiores escritoras negras da atualidade, ao utilizar uma prosa poética para investigar as feridas do pós-colonialismo, o exílio e a busca por pertencimento de corpos negros e imigrantes entre Angola e Portugal.
O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo comigo (2023)

Trata-se de um livro de ensaio que aborda a desconsideração da subjetividade negra e desconsideração pela experiência diaspórica. Ao confrontar a literatura hegemônica, a autora aponta para as artes e a ficção como caminhos fundamentais de reparação histórica.
Toda a Ferida é uma Beleza (2023)
Foi vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAB 2024, é uma narrativa muito sensível sobre a criação da beleza a partir do sofrimento.
O livro do meu pai (2025)

Publicado em Portugal pela editora Relógio D’água com o título “Livro da doença”, venceu por unanimidade a 28.ª edição do Prémio Literário Fernando Namora, sendo considerada uma obra relevante para a literatura de língua portuguesa contemporânea.
Lançada no Brasil pela editora Todavia, em 2025, a obra “O livro do meu pai” é um mergulho na dor privada e nos traumas coletivos, navegando entre a Lisboa contemporânea e as cicatrizes coloniais de Angola.
Em O livro do meu pai, Djaimilia Pereira de Almeida partilha o seu processo de luto pela perda de seu pai durante a pandemia e nos leva a mergulhar no livro que ele teria levado a vida inteira para escrever e nunca terminado. É um livro sobre dor, amor, superação e fechamento de ciclos.
Referências
ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. O livro do meu pai. São Paulo: Todavia, 2025.
ALMEIDA, Djaimilia Pereira de.Biografia de Djaimilia Pereira de Almeida. Portal Geledés, 26 out. 2016. Disponível em: https://www.geledes.org.br/djaimilia-pereira-de-almeida/. Acesso em: 20 jan. 2026.
ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. Djaimilia Pereira de Almeida. [202-?]. Disponível em: https://djaimilia.com/. Acesso em: 30 jan. 2026.
DJAIMILIA Pereira de Almeida vence Prémio Fernando Namora com o romance Livro da Doença. Público, [Lisboa], 30 out. 2025. Cultura-Ípsilon. Disponível em: https://www.publico.pt/2025/10/30/culturaipsilon/noticia/djaimilia-pereira-almeida-vence-premio-fernando-namora-livro-doenca-2152690. Acesso em: 30 jan. 2026.
ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. Eu mesma – entrevista a Djaimilia Pereira de Almeida. [Entrevista cedida a] Marta Lança. Buala, Lisboa, 16 de setembro de 2015, Cara a Cara.Disponível em: https://www.buala.org/pt/cara-a-cara/eu-mesma-entrevista-a-djaimiliapereira-de-almeida. Acesso em: 25 jan. 2026.
ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo comigo-Ensaios. Editora Todavia: São Paulo, 2023.

Doutora e mestra em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina. Formada em Letras-Português (UFPel); bacharela e licenciada em Francês (UFSC); especializada em Design Instrucional, é professora de Língua Portuguesa para o Ensino Superior, Ensino regular, EJA e francês. Desenvolve pesquisas em literaturas africanas, estudos pós-coloniais, diáspora africana e tradução. É artesã nas horas vagas, ama ler, viajar e aprender línguas estrangeiras.