“Eu levo o estudo como algo muito importante, até mesmo pela minha realidade. Eu vejo isso como uma das formas de mudar a minha situação financeira.”
A frase é de Gabrielle Dias, 23 anos, nascida no Jardim Catarina, em São Gonçalo (RJ) e hoje moradora do bairro Arsenal. Em uma casa onde vive com a mãe e os avós, estudar sempre foi entendido como um caminho possível para mudar de vida. Entre dúvidas sobre qual carreira seguir, cursos exploratórios e muitas horas de preparação para o Enem, ela segue apostando na educação como estratégia de futuro.
A trajetória de Gabrielle desafia uma ideia que tem circulado com frequência no debate público: a de que a geração Z teria perdido o interesse pelos estudos ou que não estaria disposta a fazer esforço para construir uma carreira. Na prática, a realidade parece ser mais complexa.
Histórias como a dela mostram jovens que continuam apostando na educação como ferramenta de mobilidade social, ainda que enfrentem um cenário mais instável, marcado por mudanças no mercado de trabalho, novas formas de aprendizagem e expectativas diferentes sobre o futuro profissional.
O paradoxo do ensino superior para a geração Z
Embora milhões de jovens continuem ingressando na graduação todos os anos, mais da metade não chega à formatura. Levantamento do Mapa do Ensino Superior aponta que 57,2% dos estudantes que entram na universidade no Brasil abandonam o curso antes da conclusão. A evasão é mais alta nas instituições privadas, onde chega a cerca de 59%, enquanto nas universidades públicas gira em torno de 40%. O abandono costuma acontecer cedo: segundo a OCDE, um em cada quatro estudantes deixa a graduação já no primeiro ano, quase o dobro da média observada nos países desenvolvidos.
Os números ajudam a explicar por que o debate sobre o valor da universidade voltou ao centro das discussões sobre educação e trabalho. De um lado, permanece viva a ideia de que o ensino superior é um dos caminhos mais seguros para ampliar oportunidades profissionais e melhorar a renda ao longo da vida. De outro, cresce a percepção de que o diploma, sozinho, já não garante estabilidade ou inserção no mercado de trabalho como ocorreu com gerações anteriores.
Nesse contexto, não são raras as interpretações apressadas sobre a geração Z. Há quem diga que os jovens de hoje têm menos tolerância à frustração, que evitam esforços prolongados ou que preferem caminhos mais rápidos de ascensão profissional, como a carreira de influenciador digital ou o empreendedorismo informal.
Mas os próprios dados ajudam a relativizar essa leitura.
Os cursos mais procurados no país continuam sendo Direito, Psicologia, Enfermagem, Medicina e Administração: carreiras tradicionais que exigem anos de formação e dedicação acadêmica. Ao mesmo tempo, cresce o interesse por áreas ligadas à economia digital e à tecnologia, como Marketing e Ciência da Computação, refletindo transformações recentes no mercado de trabalho. Ou seja, ao contrário do que sugere parte do debate público, a geração Z não abandonou a educação. O que está em transformação é a forma como a universidade se encaixa nas trajetórias profissionais. O diploma deixa de ser visto como um ponto de chegada e passa a ocupar uma parte importante de um percurso mais amplo de formação, experimentação e construção de carreira.
A permanência na universidade também é um desafio para jovens
Se entrar na universidade já exige esforço, continuar até a formatura pode ser ainda mais difícil. Custos com transporte, alimentação, necessidade de trabalhar e incertezas sobre o futuro profissional fazem parte da rotina de muitos estudantes brasileiros. Em muitos casos, a evasão não acontece por falta de interesse em aprender, mas pela dificuldade de conciliar estudo, trabalho e expectativas de carreira.
Gabrielle Dias, por exemplo, começou a vida acadêmica no curso de História. Foi bolsista do PIBID (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência) e também ministrou aulas voluntárias em cursos pré-vestibulares. Mas, em algum momento da sua trajetória, essa formação deixou de fazer sentido e ela decidiu interromper o curso passando a fazer parte das estatísticas de abandono do ensino superior, sem jamais desistir do sonho de transformar a própria realidade e a de sua família por meio da educação.
O que veio depois foram momentos de muitas mudanças. Escolher um novo curso, reorganizar os estudos e lidar com as incertezas do futuro. Nesse processo, o apoio dos amigos foi fundamental. Houve também um ponto de virada: um assalto — desses acontecimentos que acabam mudando a forma como olhamos para a própria vida. Vieram ainda uma mudança para o outro bairro e uma demissão. E, no meio de tudo isso, uma pergunta insistente: o que vou fazer agora?
A Awalé entra na história da Gabrielle Dias nesse momento…
Durante uma promoção de Black Friday, Gabrielle conseguiu acessar a plataforma Awalé Lab por R$ 150, passando a participar dos workshops, formações e das trocas com a comunidade. Inquieta por natureza, ela não demorou a começar. Um dos primeiros conteúdos que decidiu assistir foi o workshop “Como usar o LinkedIn como marketing pessoal”, ministrado por Esther Oruê.
A proposta parecia simples: entender como organizar o próprio perfil, contar a própria trajetória e começar a se posicionar profissionalmente. Mas, para Gabrielle, aquilo representava algo maior. Pela primeira vez, ela começava a enxergar que poderia construir uma presença profissional mesmo antes de ter todas as respostas sobre o próprio caminho.
Ela colocou as orientações em prática quase imediatamente. Atualizou o perfil, passou a acompanhar profissionais da área e começou a observar mais de perto como as pessoas compartilhavam experiências, trajetórias e oportunidades dentro da plataforma.
Aos poucos, aquele espaço que antes parecia distante começou a se tornar mais familiar. Ver outras pessoas falando sobre carreira, aprendizado e construção de caminhos profissionais ajudou Gabrielle a perceber que também poderia ocupar aquele lugar.
Foi nesse processo de experimentação e descoberta que novas possibilidades começaram a aparecer e ela teve acesso à primeira oportunidade de participar de um processo seletivo via Linkedin.
Comunidade, pertencimento e novos caminhos profissionais
Foi nesse processo de exploração que Gabrielle começou a se aprofundar em novos conteúdos dentro da plataforma Awalé Lab. Entre aulas, exercícios e conversas com outras pessoas da comunidade, ela teve contato com temas que até então não faziam parte do seu repertório profissional.
Um deles foi o Branding. “Eu nem sabia o que era branding quando comecei. E aí eu descobri: cara, isso daqui é muito legal.” A partir daí, ela passou a pesquisar mais sobre o tema, acompanhar profissionais da área e se interessar por assuntos como storytelling e gestão de marca. Aos poucos, o que começou como curiosidade foi se transformando em um campo possível de atuação.
Mas o aprendizado técnico não foi a única coisa que marcou essa experiência. Para ela, um dos aspectos mais importantes desse processo foi a sensação de pertencimento que encontrou ao longo das aulas e das trocas com outras pessoas da comunidade.
“Uma das coisas que mais me marcou foi ver mulheres negras trabalhando nesse mercado. É um mercado extremamente branco. Quando comecei a acompanhar vocês e entender as aulas, comecei a me ver dentro dessa possibilidade.”
Esse reconhecimento teve um efeito profundo. Até então, a ideia de trabalhar com comunicação e construção de marcas parecia distante. Não por falta de interesse, mas porque, muitas vezes, esses espaços não pareciam pensados para pessoas com a sua trajetória.
“Eu comecei a me ver nesses ambientes. Antes eu pensava que aquilo não era para mim. As aulas mostravam que existia essa possibilidade também.”
Mais do que aprender novas ferramentas, a experiência também mexeu com a forma como Gabriele passou a se enxergar. Ao longo das aulas e das conversas com outras pessoas da comunidade, algo que ela menciona com frequência começou a aparecer: a autoestima. Ver mulheres negras atuando na área de comunicação e falando abertamente sobre suas trajetórias teve um impacto direto na maneira como ela passou a imaginar o próprio futuro profissional.
No caso de Gabrielle, esse processo ainda está em andamento. Mas algumas coisas já mudaram. Se antes certos espaços pareciam distantes ou inacessíveis, hoje ela consegue se imaginar ocupando esses lugares.
Quando a comunidade vira parte da formação
Primeira pessoa da família a entrar na universidade, Gabrielle também acabou abrindo caminhos dentro de casa. Depois que iniciou a vida acadêmica, a própria mãe decidiu voltar a estudar e fez um curso técnico. Pequenos movimentos que mostram como, muitas vezes, uma trajetória educacional acaba ampliando possibilidades para toda a família.
Foi também nesse período de transição que a comunidade Awalé começou a ganhar um papel importante no seu caminho profissional. Ao se aproximar da Awalé, Gabrielle passou a participar de conversas com pessoas que já atuavam no mercado, acompanhar encontros com profissionais da área e trocar experiências com outras pessoas que também estavam tentando construir novos caminhos na comunicação.
Em algumas dessas trocas surgiram orientações práticas. Uma delas foi olhar para a própria trajetória e perceber que a formação em História também poderia fazer parte do seu portfólio profissional. Pequenas conversas como essa começaram a reorganizar a forma como ela enxergava o próprio percurso.
“Eu comecei a ver uma luz no fim do túnel.”
Com o tempo, essas conexões também começaram a se refletir em movimentos concretos. Um primeiro trabalho apareceu por indicação de um amigo. Outra oportunidade surgiu depois que ela começou a aplicar no LinkedIn aprendizados de um workshop da comunidade.
“Pra quem não tinha nada, eu já comecei a me movimentar.”
Participar de processos seletivos, conversar com profissionais da área e perceber que seu currículo já despertava interesse mudou a forma como ela passou a olhar para o próprio futuro.
“Eu nunca imaginei que meu currículo ia atrair um recrutador.”
Hoje, mesmo ainda em processo de aprendizagem, Gabrielle sente que também pode contribuir com outras pessoas que estão começando. A lógica da comunidade Awalé, para ela, funciona assim: ao mesmo tempo em que recebe apoio, também encontra formas de apoiar quem está chegando. Antes de terminar a conversa, ela deixa alguns conselhos para quem está entrando agora na comunidade. O primeiro é direto:
“Faça o workshop de LinkedIn. Isso vai mudar a sua vida.”
Depois disso, ela recomenda algo simples: documentar a própria jornada. Compartilhar aprendizados, publicar reflexões e marcar as pessoas que conduziram as aulas ajuda a construir presença profissional e fortalecer conexões.
Mas existe uma recomendação que ela considera ainda mais importante:
“Se permita conhecer as pessoas.”
Para Gabrielle, fazer parte de uma comunidade exige mais do que acompanhar conteúdos. É preciso se abrir para as trocas que podem surgir ali.
No final da conversa, faço uma última pergunta: se a Awalé pudesse ser resumida em uma única palavra, qual seria?
Ela responde sem hesitar:
“Comunidade.”

Rosângela Menezes é fundadora da Awalé, amazônida apaixonada pelo Boi Caprichoso e por livros. Formada em Física e Jornalismo, trabalha entre análise e comunicação para construir comunidades de aprendizagem. Nesta coluna, escreve sobre educação, trabalho e os caminhos que surgem quando pessoas aprendem juntas.os.