Muito prazer, sou Rosângela Menezes. Toda vez que relembro minha história, gosto de destacar que parte da minha família é do Rio Purus e a outra parte do Rio Solimões, já que, no Amazonas, nossas estradas são os nossos rios. Sou capaz de falar muito dos meus avôs e avós, entre tarefas domésticas e serviços na construção. Ou, como gosto de lembrar do pai do meu pai, o cara que era referência em carrinhos de pipocas em Manaus, uma vez que sua expertise na marcenaria ajudou muitos pipoqueiros a sustentar suas famílias, inclusive a nossa.
Mas faz pouco tempo, muito pouco tempo que descobri que sou neta de seringueiros. Quer dizer, sempre tentei entender como a bisa saiu do Ceará e foi parar em Canutama, no Purus, ou como o meu avô, filho de nordestino, conheceu minha avó em Coari. Era um quebra-cabeça muito complexo para juntar e, só depois dos 40 anos, quando eu já tinha subido vários degraus na minha jornada educacional, que sentei, despretensiosamente, com os avós que tenho vivos para conversar sobre toda essa história de luta e resistência.
Muito prazer, sou Rosângela Menezes. Sou técnica eletrônica, física e jornalista. Tenho MBA em Big Data aplicado ao Marketing, pela ESPM. Comecei minha carreira no chão de fábrica de multinacionais, na Zona Franca de Manaus, e tenho ampla experiência no marketing digital. Nos últimos anos, trabalhei em agências, empresas de tecnologias e, desde a crise de oxigênio em Manaus, estou à frente da Awalé, uma startup de impacto social que conecta pessoas negras e indígenas a vagas no digital.
No Dia da Educação, eu queria contar um pouco para vocês como a educação é fundamental para recalcular a rota, derrubar muros e construir pontes para novos futuros.
“Nós carregamos nossa história conosco. Somos nossa história”
A frase de James Baldwin sempre se encaixa bem na história da minha família quando penso que fui a primeira pessoa dos Nascimentos e também dos Menezes a entrar na universidade. Isso foi importante para que minhas primas pudessem se sentir à vontade para pedir ajuda no Enem, no pré-vestibular e também na escolha do curso quando chegou a hora delas.
Tempo depois, me emocionei quando minha sobrinha fez uma cartolina sobre minha trajetória para levar para a escola. O recálculo de rota também fez sentido para mim quando minha sobrinha Lyanna Menezes se mudou para Floripa para morar um tempo em minha casa e pôde viver o seu sonho de estudar Ciência da Informação, na UFSC. São ajustes necessários que nos permitiram ir muito além dos sonhos de nossas ancestrais.
Mas foi no velório da minha amiga que morreu durante o campo do doutorado que ela estava fazendo em Oxford que muitas mudanças começaram em minha jornada profissional: o que representa uma amazonense periférica em Oxford me fez repensar sobre o que nós duas estávamos fazendo ao romper os muros dos nossos bairros onde as mulheres estavam predestinadas a casar cedo, ter filhos e seguir à sombra do marido. Fabiane Oliveira, minha melhor amiga, morreu aos 27 anos durante a coleta de campo no cambo, no Gabão, para a pesquisa que desenvolveria em Oxford. Desde então, decidi que tinha o propósito de compartilhar conhecimento e fomentar muitas conexões para que muitas mais histórias similares às nossas fossem possíveis.
Dia da Educação: qual a sua representatividade?
No Brasil, o dia 28 de abril é considerado o Dia da Educação devido à promulgação da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que instituiu as diretrizes e bases da educação nacional, conhecida como Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Esta lei é fundamental para a organização e regulamentação do sistema educacional brasileiro, abrangendo desde a educação básica até a educação superior.
O dia 28 de abril foi escolhido como uma forma de celebrar e refletir sobre a importância da educação para o desenvolvimento do país, destacando a relevância de políticas educacionais que promovam a igualdade de acesso, a qualidade do ensino e a formação integral dos cidadãos.
Mas que representatividade e igualdade de acesso que a política educacional brasileira está falando:
Menos da metade dos negros e dos nordestinos concluiu o ensino médio
O artigo do poder 360º com dados do Pnad Contínua. Educação 2023 mostrou que menos da metade dos negros e nordestinos concluíram o ensino médio em 2022. A publicação ressalta que 47% dos pretos e pardos finalizaram essa etapa educacional, em contraste com 66% dos brancos. Além disso, aponta que a região Nordeste apresenta os piores índices de conclusão do ensino médio, com apenas 39% dos jovens entre 19 e 24 anos tendo concluído essa fase. O artigo também discute as consequências dessas disparidades para o acesso à educação básica e destaca a necessidade de políticas públicas para enfrentar esses desafios.
Dados mais recentes da PNAD Contínua do IBGE indicam que, apesar de avanços graduais, a desigualdade racial na educação persiste. A taxa de conclusão do ensino médio aumentou nos últimos anos, mas a distância entre pessoas brancas e negras segue significativa, refletindo desigualdades estruturais de renda, território e acesso à educação.
Brancos estudam em média 1,6 ano a mais que os negros, diz IBGE
O artigo da Alma Preta com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua) do IBGE revela que a população negra enfrenta desafios significativos no acesso à educação no Brasil. Os dados apontam que os negros têm menos anos de estudo em média do que os brancos, com uma diferença de 1,6 ano.
Essa disparidade começa no ensino médio, onde a proporção de negros que concluem essa etapa é menor do que a de brancos. Além disso, menos da metade dos negros acima de 25 anos haviam concluído o ensino médio em 2023, em comparação com mais de 60% dos brancos. No ensino superior, a diferença é ainda mais acentuada, com uma taxa significativamente menor de negros com graduação completa em comparação com os brancos. A taxa de abandono dos estudos sem conclusão da faculdade também é mais alta entre os negros. Além disso, os negros lideram a taxa de analfabetismo no país, com uma taxa mais de duas vezes maior do que a dos brancos.
Esses dados destacam a persistência da desigualdade racial no cenário educacional brasileiro e a necessidade urgente de políticas públicas eficazes para enfrentar esses desafios e promover a igualdade de oportunidades educacionais para todos.
Nos últimos anos, o debate sobre educação no Brasil deixou de ser apenas sobre acesso. Estar na escola ou na universidade não garante formação de qualidade, inserção no mercado de trabalho ou mobilidade social. Para grupos historicamente excluídos, o desafio agora é permanecer, concluir e transformar o diploma em oportunidade concreta. Falei um pouco mais sobre isso no artigo: permanência de pessoas negras Por que o acesso não basta: o primeiro ano da Awalé Lab e o desafio da permanência de pessoas negras e indígenas no mercado de trabalho.
MEC busca mais dados sobre educação indígena, quilombola e ribeirinha
Os dados sobre os povos originários no Brasil ainda são insipientes, por isso o Ministério da Educação (MEC) busca adaptar suas metodologias estatísticas para incluir mais dados sobre a situação do ensino em comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas no Censo Escolar. Isso visa criar políticas públicas que promovam maior equidade na educação pública do Brasil.
O tema foi discutido no seminário “Dados para Quê? – Formulação, Financiamento, Monitoramento e Avaliação da Equidade Educacional”, que ocorreu em Brasília. Durante o evento, o presidente do Inep, Manuel Palácios, enfatizou a importância de obter dados mais completos para entender melhor a situação dos estudantes, especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade.
O debate também destacou desafios como o acesso às escolas indígenas e ribeirinhas, além de ressaltar a necessidade de melhorias no sistema de informação do país para uma gestão educacional mais eficaz. A representante da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq), Givânia Maria da Silva, apontou a falta de visibilidade das comunidades quilombolas e indígenas como um problema significativo, destacando a precariedade das escolas nessas áreas. O seminário também discutiu a importância de produzir e usar informações de qualidade para subsidiar políticas educacionais mais efetivas.
Existe um trabalho muito intenso para o Governo e o MEC. Contudo, se o Dia da Educação tem como premissa pensar sobre a inclusão de todas as pessoas nas várias etapas do ensino, gostaria de puxar a discussão também para o ensino superior. Afinal, são as ações afirmativas aliadas a uma política de inclusão e permanência de estudantes sub-representandos que recalcula a rota da família e causa um aumento progressivo nas finanças da geração seguinte.
Além do acesso, dados recentes apontam que o principal desafio da educação indígena está na permanência e na adaptação dos modelos pedagógicos às realidades culturais e territoriais. A evasão escolar e a falta de infraestrutura adequada seguem como entraves importantes. Falei um pouco mais sobre isso no artigo: Pessoas indígenas no mercado de trabalho: desafios da informalidade e caminhos para inclusão.
Dia da educação: o acesso de grupos minorizados no ensino superior
Em 2019, vários artigos mostraram que, pela primeira vez, negros são maioria no ensino superior. Na época, as estatísticas mostraram que esse fenômeno representa uma mudança significativa no panorama educacional brasileiro e reflete os avanços nas políticas de inclusão e acesso ao ensino superior.
A reportagem ressalta que, apesar desse progresso, ainda persistem desafios relacionados à qualidade da educação, desigualdades sociais e econômicas e à necessidade de políticas públicas mais eficazes para promover a igualdade de oportunidades para todos os estudantes, independentemente de sua origem étnico-racial.
No ano seguinte, o artigo “Cresce total de negros em universidades, mas acesso é desigual” não era tão positivo ao afirmar que o aumento no número de estudantes negros nas universidades brasileiras reflete uma tendência de maior inclusão desses grupos no ensino superior. No entanto, ressalta que o acesso e a permanência desses estudantes nas universidades ainda enfrentam desafios significativos, destacando desigualdades socioeconômicas e estruturais que persistem no sistema educacional.
No entanto, dados mais recentes do Inep mostram que o acesso ao ensino superior continua crescendo, especialmente com a expansão do ensino a distância. No entanto, esse crescimento não resolve, por si só, os desafios de permanência e conclusão dos cursos, que seguem impactando de forma mais intensa estudantes negros e indígenas.
Questões como falta de recursos financeiros, discriminação racial, falta de políticas de apoio específicas e barreiras socioeconômicas continuam a dificultar o acesso e a conclusão do ensino superior para os estudantes negros. O artigo enfatiza a importância de políticas públicas eficazes e ações afirmativas para promover uma maior equidade no acesso à educação superior e combater as desigualdades raciais no Brasil.
Nos últimos anos, o debate sobre educação no Brasil deixou de ser apenas sobre acesso. Estar na universidade não garante formação de qualidade, inserção no mercado de trabalho ou mobilidade social. Para grupos historicamente excluídos, o desafio agora é permanecer, concluir e transformar o diploma em oportunidade concreta.
No Dia da Educação, também queremos lembrar dos desafios dos grupos minorizados no acesso à educação:
- Desigualdades Socioeconômicas: grupos minorizados frequentemente enfrentam desvantagens socioeconômicas, incluindo acesso limitado a recursos financeiros, condições precárias de moradia e falta de acesso a serviços básicos de saúde e educação desde a infância. Essas desigualdades podem dificultar o acesso ao ensino superior devido à falta de recursos para custear mensalidades, material didático e despesas relacionadas.
- Discriminação e racismo institucional: A discriminação racial e o racismo institucional ainda são realidades presentes em muitas instituições de ensino, o que pode criar barreiras adicionais para estudantes negros e indígenas. Essa discriminação pode se manifestar em processos seletivos, interações com professores e colegas, e oportunidades de estágio e emprego após a formatura.
- Falta de representatividade: A ausência de modelos e referências étnico-raciais nas instituições de ensino pode impactar negativamente o sentimento de pertencimento e a autoestima de estudantes negros e indígenas. A falta de professores e funcionários pertencentes a esses grupos também pode contribuir para a percepção de exclusão e marginalização.
- Desafios culturais e linguísticos: muitos estudantes negros e indígenas enfrentam desafios relacionados à adaptação a um ambiente acadêmico que pode ser culturalmente diferente de suas comunidades de origem. Além disso, a barreira linguística pode ser um obstáculo para estudantes indígenas que têm o português como segunda língua.
- Falta de políticas de ação afirmativa adequadas: Embora políticas de ação afirmativa, como cotas raciais e étnicas, tenham sido implementadas em algumas instituições de ensino superior, sua eficácia pode ser limitada devido à falta de apoio institucional, falta de recursos e resistência por parte de alguns setores da sociedade.
A digitalização da educação também trouxe novos elementos para esse debate. A expansão do ensino remoto e híbrido ampliou o acesso, mas também evidenciou desigualdades relacionadas à conectividade, acesso a equipamentos e qualidade do acompanhamento pedagógico.
E quando falamos de população indígenas quais as oportunidades e desafios
O acesso de povos indígenas ao ensino superior enfrenta desafios significativos, mas há avanços impulsionados por políticas de inclusão e iniciativas específicas. A Lei de Cotas (Lei 12.711/2012) reserva vagas para indígenas em universidades federais, desde que tenham cursado o ensino médio em escolas públicas.
Um estudo do Instituto Semesp revelou um aumento de 374% nas matrículas de descendentes de povos originários no ensino superior entre 2011 e 2021, sendo a maioria nas instituições privadas. A modalidade presencial concentrou a maioria das matrículas, com cerca de 70,8% dos estudantes indígenas. Apesar do crescimento, o número absoluto de alunos indígenas no ensino superior em 2021 foi de aproximadamente 46 mil, representando apenas 0,5% do total de alunos.
Entre os cursos presenciais mais procurados por indígenas estão Direito, Enfermagem e Pedagogia. As áreas de Educação, Saúde e Bem-Estar são as mais populares entre os estudantes indígenas.
Já a reportagem do G1 com dados de pesquisa do IBGE e do Inep mostrou que o número de indígenas no ensino superior é cinco vezes maior que em 2011. Contudo, a reportagem destaca que a maioria desses estudantes indígenas está matriculada em instituições privadas de ensino, com 63,7% estudando em universidades particulares. Esse percentual também é alto entre os estudantes não indígenas, com 76,9% dos universitários brasileiros matriculados em instituições privadas.
A presença crescente de indígenas nas universidades é vista como um passo importante na luta pelos direitos dos povos originários, mas ainda há desafios a serem enfrentados. Um dos principais desafios é a falta de professores indígenas nas instituições de ensino, o que afeta a forma como a história e a cultura dos povos originários são ensinadas. Apesar do crescimento no número de alunos indígenas, não existem dados atualizados sobre a quantidade de professores indígenas atuando no ensino superior.
Dados recentes reforçam que o crescimento no acesso não tem sido acompanhado, na mesma medida, por políticas estruturadas de permanência. Questões como apoio financeiro, moradia estudantil, adaptação cultural e suporte acadêmico seguem sendo determinantes para a continuidade desses estudantes nas universidades.
Além disso, especialistas e pesquisadores apontam que ainda há um descompasso entre os modelos de ensino superior e as realidades dos povos indígenas. A ausência de abordagens interculturais e bilíngues, somada à distância dos territórios de origem, pode impactar diretamente a permanência e o bem-estar desses estudantes.
Outro ponto recente do debate é a necessidade de produção de dados mais consistentes sobre a trajetória de estudantes indígenas no ensino superior. Iniciativas do Ministério da Educação e do Inep têm buscado ampliar a coleta de informações para orientar políticas públicas mais eficazes, especialmente no que diz respeito à permanência e conclusão dos cursos.
A expansão do ensino a distância também aparece como uma possibilidade de ampliação de acesso, mas levanta questionamentos importantes sobre qualidade, acompanhamento e adequação às especificidades culturais e territoriais dos povos indígenas.
Nesse contexto, o desafio não é apenas garantir vagas, mas construir caminhos para que estudantes indígenas consigam permanecer, se formar e acessar oportunidades de trabalho que respeitem suas trajetórias, territórios e modos de vida.
No Dia da educação queremos lembrar que representatividade importa
A presença de professores negros e indígenas nas universidades desempenha um papel fundamental na promoção da identificação e do engajamento dos jovens pertencentes a esses grupos étnico-raciais. Ao verem professores que compartilham suas experiências e identidades, os estudantes se sentem mais representados e validados, o que contribui para sua autoestima, confiança e senso de pertencimento na instituição de ensino.
Além disso, a presença de professores negros e indígenas nas universidades pode contribuir significativamente para a qualidade da educação e o bem-estar dos estudantes pertencentes a grupos sub-representados. Esses professores podem oferecer uma educação mais inclusiva, relevante e contextualizada, incorporando perspectivas e conhecimentos específicos sobre a história, cultura e desafios enfrentados por esses grupos étnicos.
É por isso que na Awalé nossas pessoas facilitadoras e pessoas mentoras são negras ou indígenas, pois esse reconhecimento no outro não apenas enriquece o processo de aprendizagem, mas também ajuda a combater estereótipos prejudiciais, promovendo um ambiente acadêmico mais acolhedor, diversificado e equitativo para todos os estudantes. Tudo isso sem contar que ter profissionais negros e indígenas no ensino superior, inspira os estudantes a alcançar os próprios objetivos acadêmicos e profissionais.
No Dia da Educação, também queremos reforçar o trabalho que desenvolvemos na comunidade Awalé, pessoas negras e indígenas à formação em marketing e a oportunidades reais no mercado de trabalho.
Se você acredita na educação como caminho para ampliar acesso, permanência e renda, te convidamos a apoiar a Awalé — seja compartilhando nosso trabalho, indicando para outras pessoas ou construindo parcerias. É assim que conseguimos ampliar o número de pessoas que recalculam suas rotas a partir da educação.

Rosângela Menezes é fundadora da Awalé, amazônida apaixonada pelo Boi Caprichoso e por livros. Formada em Física e Jornalismo, trabalha entre análise e comunicação para construir comunidades de aprendizagem. Nesta coluna, escreve sobre educação, trabalho e os caminhos que surgem quando pessoas aprendem juntas.os.