Julho das Pretas: uma agenda que atravessa as mulheres negras o ano inteiro

Empreendedoras Negras

“A descoberta de ser negra é mais do que a constatação do óbvio. Saber-se negra é viver a experiência de ter sido massacrada em suas identidades, confundida em suas perspectivas e submetida a exigências. Mas é também, e sobretudo, a experiência de comprometer-se a resgatar a sua história e recriar-se em suas potencialidades.”— Neusa Santos

Começo este texto com essa citação de Neusa Santos no livro “Torna-se negro” porque ela me atravessa. Não apenas pela precisão com que descreve o que é se descobrir negra em um país que insiste em negar nossa humanidade, mas porque esse compromisso com o resgate e com a reinvenção não é simples e está muito longe de ser leve. 

Desenvolver autoestima, recriar potências, ser criativa, inventiva, empreendedora, profissional de sucesso, mãe, fazer uma transição de carreira, iniciar no mercado de trabalho…. Tudo isso continua sendo um desafio gigante para mulheres negras, sobretudo quando a base é a ausência: de oportunidades, de segurança, de tempo, de descanso.

É por isso que, pra mim, o Julho das Pretas também vem acompanhado de um pouco de ressaca. De um cansaço que é coletivo, estrutural, e que não se resolve só com garra ou otimismo. Mas também vem com força. Com vontade de fazer acontecer. Com lembrança do que já conquistamos e, principalmente, com a certeza do que ainda precisamos conquistar.

Afinal, o Julho das Pretas é uma data que começou com luta. Uma reação à invisibilidade, aos silêncios e às homenagens vazias. É fruto da mobilização de mulheres negras organizadas que entenderam que não bastava ocupar espaços: era preciso transformá-los. E, ano após ano, essa data tem se ampliado em número de atividades, de vozes, de territórios e de incidência política.

Fica aqui comigo que vamos falar mais sobre este marco histórico, que está muito longe de ser uma data no calendário de julho, justamente por atravessar os nossos corpos durante todos os meses do ano.

O que é o Julho das Pretas e por que ele nasceu da urgência?

O Julho das Pretas é a maior agenda conjunta de mobilização de mulheres negras do Brasil. Criado em 2013, na Bahia, pelo Odara – Instituto da Mulher Negra, surgiu como resposta à invisibilidade das pautas das mulheres negras nos calendários oficiais e aos discursos institucionais que reduziam o 25 de julho a homenagens simbólicas, sem articulação política ou transformação concreta.

A data central do mês, 25 de julho, marca o Dia da Mulher Afrolatino-americana, Afrocaribenha e da Diáspora, instituído em 1992 no 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, em Santo Domingo, na República Dominicana. No Brasil, desde 2014, a data também celebra o Dia Nacional de Teresa de Benguela e da Mulher Negra, em referência à liderança quilombola que comandou o Quilombo do Quariterê, no Mato Grosso, por mais de duas décadas no século XVIII.

A ideia de um mês inteiro de ações nasceu do desejo de fazer mais do que eventos isolados. De dar nome, corpo e estratégia à luta por equidade racial e de gênero. O nome “Julho das Pretas” foi sugerido por Naiara Leite, uma das fundadoras do Odara, durante a organização de atividades em Salvador. A proposta inicial era simples: somar forças, fazer uma ação unificada no dia 25 e fortalecer mutuamente as demais ações ao longo do mês.

Mas o que começou como uma articulação local rapidamente se expandiu. Em 2015, com a Marcha das Mulheres Negras em Brasília, o Julho das Pretas ganhou projeção nacional. E, desde então, cresce a cada ano, com centenas de organizações envolvidas e ações realizadas em dezenas de estados. Em 2023, foram mais de 500 atividades em 21 estados brasileiros — do Norte ao Sul — conectando mulheres negras de diferentes gerações, territórios e linguagens.

Para saber mais sobre a história do Julho das Pretas, leia o artigo: A história do Julho das Pretas: maior agenda conjunta e propositiva de incidência política de organizações e movimento de mulheres negras do Brasil nasceu na Bahia, da ONU mulheres.

O que aprendi construindo uma comunidade de mulheres negras e indígenas

Isabella Milena, Rosângela Menezes e Mariana Cambirimba no RD Summit 2024

Existe um ser negra antes e depois da fundação da Awalé. Não porque não me enxergava como tal, mas porque nascemos na pandemia, do desconforto das estatísticas de desemprego, fechamentos de negócios e mortes pela Covid-19. Comecei a Awalé de forma muito pequena, quase artesanal.

Nossa primeira turma contou com cerca de 12 mulheres que tentar voltar ao mercado. Sem material gravado, sem kits de alunas, mas com aulas intensas e cheias de presença. Isso foi o que nos ensinou que pertencimento se constrói também na urgência, no gesto simples, na escuta e no afeto compartilhado.

Foi ali que entendi, com mais profundidade, o que Neusa Santos chamava de “recriar-se em suas potencialidades”. Porque formar uma comunidade de mulheres negras e indígenas não é só sobre ensinar uma profissão. É sobre abrir caminho onde antes só havia porta fechada. É sobre ouvir histórias de quem nunca teve acesso à internet de qualidade, mas sonha em ser social media. De quem mal tem tempo entre o trabalho e os filhos, mas insiste em aprender SEO. De quem já foi demitida por racismo, mas continua mandando currículo.

Construir essa comunidade me ensinou que sucesso não pode ser medido só por diplomas ou empregos. Sucesso, aqui, é uma mulher que consegue dizer “eu consigo”, mesmo quando tudo ao redor diz que não. Sucesso é a troca no grupo de WhatsApp, é a mentoria onde uma pergunta vira caminho, é o “me avisa se tiver vaga” dito com esperança.

Penso, por exemplo, em uma das alunas da nossa primeira turma. Ela havia terminado a faculdade e já tinha passado por uma experiência de estágio, mas ainda não conseguia se inserir no mercado de trabalho. Fez o curso de Conteúdo Criativo e SEO conosco e, logo depois, começou a produzir conteúdos como freelancer dentro da nossa agência, a Awalé Digital. Acompanhamos cada passo com afeto e atenção. Estávamos lá para comemorar quando ela conseguiu o primeiro emprego em uma startup de tecnologia. Vibramos juntas quando ela foi promovida à coordenação. E, batemos palmas de pé quando ela foi promovida a gerente.

Mas nem só de histórias de sucesso vive a Awalé. Também tivemos muitas mulheres que ficaram no meio do caminho. E, aqui, os motivos são vários: falta de tempo, cansaço, a sobrecarga do cuidado, o medo de não dar conta, a sensação de que escrever um texto ou se candidatar a uma vaga no LinkedIn é coisa “pra quem já está lá”.

Essas desistências — ou pausas, como prefiro chamar — também dizem muito. Elas denunciam um sistema que exige esforço individual, mas não garante estrutura coletiva. Um sistema que ainda enxerga mulheres negras como exceção, não como regra. Mesmo assim, seguimos. Porque cada história que floresce nos mostra que vale a pena. E porque sabemos que sem comunidades como a nossa, muitas sequer teriam chance de tentar. Como disse Audre Lorde: “Sem comunidade, não há liberdade.”

Julho das Pretas é também falar sobre dados que não devem ser esquecidos

Como bem aponta Maurício Pestana em seu artigo na IstoÉ Dinheiro, “as mulheres negras estão na base da pirâmide”. Não por escolha, mas por um sistema que, ao longo da história, estruturou a exclusão e a violência como norma. Estão onde estão porque o Brasil assim construiu — e assim mantém. E é por isso que precisamos repetir os dados. Nomeá-los. Não deixar que eles se percam em PDFs arquivados ou em pautas passageiras de diversidade.

O artigo foi publicado em 2016 e também faz parte do livro A empresa antirracista: como CEOs e altas lideranças estão agindo para incluir negros e negras nas grandes corporações, que Maurício relançou em 2021. Mas não, os números não melhoram muito. 

Afinal, o que a gente sente no corpo, os números escancaram. Mulheres negras seguem sendo a base da pirâmide social: as que mais trabalham, as que menos descansam, as que recebem apenas 48% do salário dos homens brancos e as que enfrentam o dobro de desemprego dos homens negros.

Segundo a segunda edição do Informe sobre Mulheres Negras, publicado pelo Ministério da Igualdade Racial em parceria com o DIEESE, em 2022 a taxa de desemprego entre mulheres negras foi de 13,2% — a mais alta entre todos os grupos populacionais. Ainda que mais da metade esteja no mercado de trabalho, 46% atuam na informalidade, sem direitos trabalhistas ou proteção social. A renda média das mulheres negras ocupadas foi de R$ 1.624, enquanto homens brancos receberam, em média, R$ 3.651 no mesmo ano.

Mesmo quando conseguem acessar a educação, o retorno financeiro não acompanha o esforço: mulheres negras com ensino superior completo recebem, em média, R$ 3.448, quase metade do que ganham homens brancos com o mesmo grau de instrução.

Além disso, elas seguem sendo maioria nos postos de menor prestígio e proteção: mais de 1 milhão de mulheres negras estão no trabalho doméstico, representando 61,1% de todas as trabalhadoras domésticas do país.

E isso tudo acontece mesmo quando somos muitas. Dados da PNAD Contínua revelam que, em 2022, mulheres negras representavam 28% da população brasileira — sendo 5,3% mulheres pretas e 23% mulheres pardas. Em números absolutos, somos mais de 59 milhões de brasileiras negras. Mas ainda somos tratadas como exceção.

Mulheres negras na liderança: o desafio de chegar lá

Seja no campo familiar, comunitário ou afetivo, mulheres negras sempre estiveram à frente. Lideraram lares, cuidaram de territórios e sustentaram redes inteiras com pouco ou nenhum apoio. Mas esse protagonismo, tão evidente em nossas vivências, não se reflete nos espaços institucionais de poder. 

No mercado de trabalho, seguimos sub-representadas. Apesar de um crescimento de 12% na presença de pessoas negras em cargos de liderança na última década, apenas uma a cada 48 pessoas negras ocupa esses postos — enquanto entre pessoas brancas, a proporção é de uma a cada 18. Quando o recorte é de gênero e raça, o abismo se aprofunda: somente 8% das mulheres negras estão em posições de liderança nas empresas brasileiras e, nas 40 maiores companhias do país, menos de 2% das conselheiras são negras.

Esses números não surpreendem quem vive a experiência. Muitas mulheres negras sabem, na prática, o quanto é difícil crescer dentro de uma organização. Dados mostram que mais de um terço delas se sente insatisfeita com as oportunidades de crescimento oferecidas nas empresas — e apontam o racismo e o machismo estruturais como os principais obstáculos para ascender a cargos de decisão.

Mesmo quando alcançam posições de liderança, a jornada segue marcada pela solidão e pela ausência de suporte. Cerca de 60% das líderes negras dizem se sentir sozinhas em seus ambientes de trabalho, o que impacta diretamente sua permanência, suas redes de parceria e a possibilidade de desenvolver outras lideranças. E em um mercado onde indicações ainda são decisivas para acessar boas oportunidades, só 26% das mulheres negras afirmam já terem sido indicadas para alguma vaga — evidência do isolamento profissional que enfrentam.

Você pode saber mais sobre o caminho solitário das Mulheras Negras na liderança neste artigo do Think Olga. 

Mulheres negras do norte existem e resistem

Inforgráfico do dieese sobre a inserção de mulheres negras nortistas no mercado d etrabalho

Falar de mulheres negras no Brasil é também falar sobre território. E quando o território é o Norte, o apagamento se aprofunda. Pouco se fala sobre as desigualdades enfrentadas por mulheres negras que vivem nos estados amazônicos — ainda que elas sigam resistindo todos os dias, trabalhando, empreendendo, cuidando de suas famílias e sonhando com um futuro possível.

Dados do DIEESE (3º trimestre de 2024) mostram que, mesmo compondo parte significativa da força de trabalho da região, as mulheres enfrentam piores condições de empregabilidade. No Pará, por exemplo, quase 60% das mulheres ocupadas recebem até um salário mínimo, a maior proporção entre todos os estados da região Norte. No Amazonas, esse número também ultrapassa a metade: 50,1% das mulheres estão nessa faixa de rendimento.

As taxas de desocupação também são mais altas para mulheres do que para homens em todos os estados que disponibilizaram os dados comparativos. No Amapá, por exemplo, a taxa de desocupação feminina é de 10,7%, contra 6,6% entre os homens. No Amazonas, 11,4% das mulheres estão sem emprego, frente a 5,9% dos homens.

Além disso, mesmo quando conseguem um emprego, as mulheres da região recebem menos. No Amazonas, o rendimento médio mensal feminino é de R$ 2.081, enquanto o dos homens chega a R$ 2.408. No Pará, a diferença é ainda maior: R$ 2.045 para mulheres contra R$ 2.345 para homens. Essa realidade também aparece nos dados do Tocantins, onde 44,5% das mulheres ganham até um salário mínimo, frente a 31,7% dos homens.

Esses dados reforçam a urgência de políticas públicas com recorte racial, territorial e de gênero. Mulheres negras do Norte não apenas existem — elas resistem em meio a camadas múltiplas de exclusão.

Na Awalé, temos como meta ampliar a nossa presença na região Norte. Não só porque sou uma mulher amazônida, mas porque as estatísticas de educação, trabalho, renda e violência contra a mulher tornam ainda mais urgente a criação de oportunidades para mulheres negras e indígenas que vivem nesses territórios. Acreditamos que investir em formação, conexão e acolhimento nesses contextos é antes de tudo uma forma de justica social.

E como colaborar com o Julho das Pretas o ano inteiro?

Julho é um mês de celebração, visibilidade e resistência, mas o compromisso com a vida, o trabalho e os sonhos das mulheres negras precisa atravessar o calendário. Colaborar com o Julho das Pretas o ano inteiro é reconhecer que essa luta não se apaga no dia 31. É se comprometer com a mudança das estruturas que nos excluem, silenciam e desvalorizam.

A seguir, algumas formas de manter esse compromisso vivo:

  • Ouça e amplifique vozes negras: compartilhe textos, livros, projetos, podcasts e produções culturais feitas por mulheres negras. O algoritmo pode até silenciar, mas você pode fazer chegar. Leia aqui: Representatividade Negra: 10 influencers negras para seguir hoje mesmo
  • Contrate mulheres negras: no marketing, na tecnologia, na criação de conteúdo, na liderança. E quando não souber por onde começar, pergunte. A ausência de diversidade não é falta de currículo  é falta de vontade política. Saiba mais sobre as possibilidades de oferta de vagas em nossa plataforma de educação, conexão e empregabilidade, a Awalé Lab.
  • Apoie financeiramente iniciativas lideradas por mulheres negras: seja com doações, compras ou parcerias. Na Awalé, por exemplo, construímos formações que geram renda, empregabilidade e pertencimento para mulheres negras e indígenas. Apoiar nossas formações é uma forma concreta de transformar histórias e redistribuir oportunidades.
  • Estude e confronte seus privilégios: não adianta apoiar em silêncio. É preciso estar disposto a abrir mão de espaços, questionar práticas e provocar mudanças nos lugares que você ocupa. Leia também: Letramento racial: como ele é uma resposta ao racismo?
  • Cuide das mulheres negras ao seu redor: isso inclui escuta, reconhecimento, apoio emocional e material. E, principalmente, respeito às suas decisões, trajetórias e ritmos.

Se você quer saber mais como colaborar qual a Awalé para além do Julho das Pretas, que tal marcamos um bate-papo? Link da minha agenda aqui

O poder da rede e da comunidade

Ninguém constrói sozinha. Ainda mais quando se é mulher, negra, amazônida e empreendedora em um país que insiste em nos empurrar para as margens. O que me mantém de pé não é só a minha força individual, mas, sim, a força da rede. Do coletivo. Da comunidade. As trocas não são uma prática ancestral africana? O nome Awalé por si só traz o coletivo como forma de seguirmos juntas no mundo em seu DNA.

A comunidade que me abraça nos dias em que penso em desistir. As empreendedoras negras que estão comigo não só nos palcos e premiações, mas nas reuniões difíceis, nos boletos atrasados, nas decisões difíceis de tomar e nos sonhos que a gente ainda não teve tempo de contar em voz alta.

Essa rede é feita de trocas reais. De uma ligação no fim do dia. De uma indicação que vira contrato. De uma mensagem no WhatsApp que diz: “vamos juntas?”. É nesse chão coletivo que encontro coragem para seguir criando, mesmo diante do cansaço. Porque sei que não estou só. Que honramos quem veio antes e nos amparamos também para abrir espaço para quem vem logo mais.
Quero  citar nomes: Camila Nunes, da Mahani; Jessica Trindade, Belkis Rosa e Cleuse Soares, do Morro do Silício.

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